Na tenda da Coiab, no Acampamento Terra Livre (ATL), uma roda de conversa reuniu lideranças, ativistas e profissionais de saúde para discutir os desafios da saúde mental enfrentados por indígenas LGBTQIA+ em diferentes territórios. O encontro ocorreu nesta quarta-feira, dia 8.
O debate evidenciou um cenário marcado por violências múltiplas e impactos diretos no bem-estar psicológico dessa população. A psicóloga social Iterniza Macuxi alertou para os altos índices de adoecimento mental. “Esse é o público com maior número de casos de ansiedade, depressão e tentativas de autoextermínio”, afirmou, destacando que as violências enfrentadas são físicas, psicológicas, estruturais e institucionais.
Representando o coletivo indígena LGBTQIA+ Miriã Mahsã, Thais Desana ressaltou que, apesar de avanços, a pauta ainda é tratada como secundária dentro do próprio movimento indígena. “A nossa luta, apesar de estar sendo uma luta paralela, não deveria ser dessa forma”, disse. Ela também apontou que a sobreposição de opressões agrava o cenário: “Quando falamos de mulheres indígenas LGBTs, essas violências se duplicam, se triplicam”.
Um dos momentos mais marcantes foi o relato de Wendy Lady, mulher trans indígena, que trouxe à tona experiências de violência e exclusão vividas desde a infância. “Ser um corpo trans e travesti na Amazônia não é fácil”, afirmou, ao relatar episódios de violência e o impacto direto na saúde mental, marcado por depressão, ansiedade e tentativas de suicídio. A fala evidenciou a vulnerabilidade extrema enfrentada por corpos trans indígenas dentro e fora dos territórios.
A coordenadora da União das Mulheres Indígenas da Amazônia Brasileira (Umiab), Marinete Tukano, reconheceu as dificuldades de avançar com o tema dentro das organizações indígenas. “É uma pauta muito difícil para as lideranças indígenas”, afirmou, citando resistências baseadas em questões culturais e religiosas. Ainda assim, destacou que há um processo em curso de inclusão da temática nas agendas políticas e organizativas.
Durante a roda, participantes também denunciaram a invisibilização e o medo vividos dentro dos territórios. “A gente fala sobre isso porque a gente está morrendo”, relatou uma liderança indígena, ao mencionar casos de suicídio entre jovens LGBTQIA+ e a ausência de políticas públicas específicas. Relatos apontaram que muitos ainda não se sentem seguros para assumir suas identidades dentro das próprias comunidades.
Outro ponto recorrente foi a crítica à influência de valores externos, como a moral cristã, que, segundo participantes, tem contribuído para o aumento da discriminação e do apagamento dessas identidades nos territórios. Em contraponto, lideranças destacaram a necessidade de retomar saberes ancestrais que reconhecem a diversidade de corpos e existências.
Representantes da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) apontaram iniciativas em andamento, como o fortalecimento do atendimento psicossocial, ações educativas nos territórios e a criação de mecanismos para reconhecer identidade de gênero nos sistemas de saúde indígena. Ainda assim, os participantes reforçaram que os avanços precisam sair do campo institucional e se traduzir em ações concretas no cotidiano das comunidades.
Ao final, o encontro reforçou a urgência de consolidar a pauta dentro do movimento indígena e das políticas públicas. A avaliação geral foi de que o debate já representa um avanço, mas ainda enfrenta resistência e baixa adesão em alguns espaços.
“Não é só sobre lutar, é sobre viver com dignidade”, resumiu uma das participantes, sintetizando o tom da discussão e o principal recado deixado pela roda de conversa.
Foto: Ronaldo Tapirapé
