Iniciativa indígena inédita coletou indicadores de bem-viver e Gestão Territorial em 64 Terras Indígenas da Amazônia Legal

Os dados, baseados na percepção dos próprios povos indígenas e coletados também pelos indígenas, vão oferecer um panorama sobre o avanço de políticas públicas e iniciativas nos territórios e servir como ferramenta inovadora para a gestão territorial 

Por: TNC Brasil

Publicada em: 09/04/2026 às 12:14

Uma iniciativa da Coiab em parceria com a TNC no âmbito do Projeto Redes Indígenas, coletou indicadores de bem-viver em 64 Terras Indígenas da Amazônia Legal por meio do MonitorGati, ferramenta de monitoramento da implementação da Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental em Terras Indígenas (PNGATI).

Instituída por decreto em 2012, a PNGATI é um dos alicerces das políticas indígenas do Brasil. Segundo Luana Fowler, especialista em conservação da TNC, “essa política foi criada com ampla consulta aos povos indígenas e visa à proteção dos territórios, geração de renda, conservação da biodiversidade e valorização dos saberes tradicionais, sendo um guia essencial para a gestão dessas áreas. O principal desafio para sua efetivação, no entanto, reside na garantia de recursos financeiros para a implementação direta nos territórios”.

É nesse contexto que o MonitorGati surge como uma resposta estratégica. Financiado pelo Fundo Amazônia, o Projeto Redes Indígenas, busca fortalecer as organizações de base da Coiab nos nove estados da Amazônia Legal e a UMIAB, além de diagnosticar a situação dos territórios, identificar gargalos e criar indicadores que permitam pautar os governos e tomadores de decisão na implementação da PNGATI.

“A metodologia do MonitorGati é o que o torna verdadeiramente inovador. Ela está baseada na percepção dos povos, então é uma ferramenta onde eles avaliam alguns indicadores de bem-viver a partir de seis eixos, abrangendo gestão ambiental, territorial, econômica, organizativa, parcerias e gestão cultural e do bem-estar. Foram capacitados 64 Agentes de Monitoramento Indígena (AMIs) para aplicar um formulário digital em grupos focais com anciões, mulheres, jovens e lideranças em cada território, garantindo que a avaliação reflita a realidade local. São os povos indígenas aprendendo a usar essa ferramenta, aplicando nos seus próprios territórios e discutindo sobre isso”, ressalta Rosibel Baré, gerente da Gerência de Monitoramento Territorial Indígena da Coiab.

“O MonitorGATI foi criado em 2015, um pouco depois da criação da PNGATI. E, agora, o projeto Redes está sendo implementado essa ferramenta na prática. Trata-se de um monitoramento participativo que, ao criar um índice da percepção indígena sobre bem-estar, pode servir de referência para aprimorar a gestão dos territórios e as políticas públicas de PNGATI. Algo semelhante ao IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), porém, em vez de focar em saúde, educação e renda, o MonitorGati foca em outras seis dimensõescentrais da gestão de uma Terra Indígena, a partir da experiência concreta das comunidades”, segundo Luana
A gestão ambiental considera elementos como o acesso à água de qualidade, a existência de terra boa para plantar e a conservação de roças, sementes e quintais tradicionais. A gestão econômica observa como as famílias garantem seu sustento, incluindo atividades produtivas como roças e artesanato, a venda desses produtos e as relações comerciais com o entorno não indígena. A gestão territorial analisa o status da Terra Indígena (se está demarcada ou não), a presença de ameaças como invasões ou grandes obras e as ações de vigilância e monitoramento do território.

A gestão organizativa foca na forma como a comunidade se estrutura internamente, considerando a atuação das lideranças, das associações indígenas e a participação da comunidade, especialmente mulheres, nas decisões coletivas. A gestão de parcerias avalia o apoio recebido de instituições como FUNAI, governos e ONGs, a existência de projetos com financiamento e assessoria técnica e a capacidade de administrar recursos. Por fim, a gestão cultural e do bem-estar aborda aspectos ligados à qualidade de vida, como a educação diferenciada nas escolas, as condições de saúde e nutrição e as iniciativas de valorização das tradições culturais e do plano de vida das comunidades.

O processo de coleta desses indicadores junto aos AMIs foi concluído em abril e os indicadores do MonitorGati serão consolidados e divulgados ainda em 2026. “A expectativa é que os indicadores ajudem a pautar o diálogo com parceiros, órgãos públicos e possíveis financiadores, por exemplo. Além de fornecer dados concretos para o diálogo interno nas comunidades, fortalecendo a governança local e ajudando a identificar prioridades, ameaças e oportunidades”, afirma Fowler.

“O levantamento desses indicadores é uma estratégia essencial para conhecer a realidade dos povos indígenas da Amazônia brasileira, pois reflete suas diversidades sociais, culturais, econômicas e territoriais, entre outros aspectos. Essas informações servirão para fortalecer a gestão, a economia, o bem-viver nos territórios, melhorando a qualidade de vida indígena em todas as dimensões”, afirma Toya Manchineri, coordenador-geral da Coiab.

São previstas três coletas de dados pelo MonitorGati ao longo dos próximos quatro anos para calibrar e refinar a ferramenta e construir uma base de dados robusta. “A expectativa é que este monitoramento se torne uma prática constante. Que o bem-viver nesses territórios seja mensurado sempre com base na visão e na percepção deles mesmos, trazendo a voz e a realidade dos povos indígenas “, conclui Rosibel.

AMI – Agentes de Monitoramento Indígena

Os agentes de monitoramento indígena (AMI) estão no centro do MonitorGati, desempenhando um papel crucial na coleta de dados e na promoção do diálogo dentro de suas comunidades. A formação desses agentes é realizada pelo Centro Amazônico de Formação Indígena (CAFI) da Coiab, onde aprendem a utilizar a ferramenta de avaliação. A seleção é feita com base em critérios estabelecidos pela própria Coiab, suas redes e organizações de base estaduais, com indicações diretas dos territórios e lideranças, garantindo que os monitores sejam representantes legítimos e conhecedores de suas realidades.

A atuação desses agentes vai além da simples aplicação de um formulário. Eles são capacitados para organizar oficinas em seus territórios, mobilizando a comunidade para participar ativamente do processo de avaliação. Durante essas oficinas, os agentes formam grupos focais com anciões, mulheres, jovens e lideranças, coletando percepções sobre o bem-viver e a implementação de políticas públicas. A ferramenta utilizada é um formulário digital, preenchido em um aplicativo, o que permite que os dados sejam enviados diretamente para uma base de dados para tratamento e análise, integrando tecnologia ao conhecimento tradicional.

“O trabalho dos AMI é fundamental para o carácter de inovação do MonitorGati, pois são os próprios povos que aplicam e discutem a ferramenta em seus territórios. Essa abordagem não só garante que os indicadores reflitam a percepção e a realidade local, mas também movimenta o diálogo interno nas comunidades. Ao longo do processo, as comunidades percebem situações, organizam-se melhor e fortalecem sua governança, identificando onde precisam de mais foco. Assim, os agentes não são apenas coletores de dados, mas catalisadores do fortalecimento da autonomia e do protagonismo indígena na gestão de seus territórios”, afirma Luana.

“Aplicar a Monitorgati dentro do meu território indígena foi uma experiência profundamente significativa. Mais do que um simples instrumento de monitoramento, a monitorgati se mostrou uma ferramenta de escuta e de valorização das vozes da comunidade.  Estar nesse espaço, que carrega minha história, meus afetos e minha identidade, possibilitou um olhar mais sensível sobre a realidades locais, fortalecendo a importância de pensar práticas de cuidado e monitoramento que respeitem as especificidades culturais de cada povo. Durante a aplicação, percebi o quanto o diálogo entre o saber técnico e o saber tradicional pode gerar a trocas riquíssimas. As pessoas se mostraram abertas, curiosas e comprometidas.  Durante a aplicação foi necessário traduzir conceitos e adequar a linguagem para que todos se sentissem incluídos e compreendessem o objetivo da aplicação”, segundo Sandra Jaqueline Gomes da Silva Xerente, agente indígena do Tocantins.

“A aplicação da ferramenta também mostrou a importância de ampliar as ações comunitárias para fortalecer nossa capacidade de enfrentar os desafios atuais. Tornou-se evidente a necessidade de criar mais iniciativas que ajudem as comunidades a lidar com os efeitos das mudanças climáticas, especialmente no que diz respeito à produção e à segurança alimentar. Da mesma forma, ficou claro que é fundamental fortalecer a organização das mulheres dentro da Terra Indígena, garantindo espaços de participação, formação e tomada de decisão, além de desenvolver ações e projetos específicos tanto para mulheres quanto para os jovens, que têm um papel essencial na continuidade da vida no território”, de acordo com Gustavo Lima de Souza, AMI do Amazonas.

“Foi muito importante para meu o povo que vai poder ter conhecimento de como está a situação da Terra Indígena e muitas informações que não sabíamos, como quantas pessoas tem no território, a identificação dos animais e peixes que estão desaparecendo, o avanço do desmatamento, na prevenção do fogo e fortalecimento da nossa cultura”, comentou Fabrícia Koxawiri Tapirapé, AMI do Mato Grosso.

“O apoio da comunidade foi essencial. Lideranças, professores, alunos e o povo em geral participaram de forma ativa, colaborando com ideias, observações e opiniões. As rodas de conversa foram momentos importantes de troca de conhecimento, construção conjunta e fortalecimento da união entre todos”, segundo Tukumaia Santanna Trumai, agente do Mato Grosso.

“Gerou uma reflexão sobre criar estratégias ou fontes de apoios para beneficiar as comunidades dentro do território ou trazer pessoas externas para ajudar a refletir para elaborar boas ações para uma boa gestão, ou formar lideranças dentro do território para que assim se tenha uma visão mais coletiva”, conclui Irenilde de Sousa Leão Filha Guajajara, AMI do Maranhão.

A trajetória do Projeto Redes também é marcada por uma perda profunda e irreparável: a de Gabriel Ferreira Rodrigues, Agente de Monitoramento Indígena que faleceu em fevereiro de 2026. “Gabriel representava, de forma exemplar, a inovação e a força coletiva dessa iniciativa, que aposta no protagonismo indígena para o monitoramento e a gestão dos territórios. Sua atuação comprometida, sua capacidade de articular comunidade, conhecimento e ação, e sua dedicação à defesa dos direitos territoriais fazem de sua ausência uma lacuna imensa, mas também um legado que seguirá inspirando esse trabalho e todos os que acreditam na construção de soluções lideradas pelos próprios povos indígenas. Nos solidarizamos com sua família, com o povo Wapixana e com os parceiros do CIR, reafirmando nosso compromisso de honrar essa caminhada coletiva que Gabriel ajudou a construir”, segundo Helcio Souza, líder de estratégia indígena da TNC Brasil.

Fotos: Taila Wajuru