A Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) promoveu por meio do Centro Amazônico de Formação Indígena (Cafi), de 27 a 30 de julho, o Curso de Economias Indígenas, em Manaus. A formação reuniu lideranças e representantes de organizações indígenas dos nove estados da Amazônia Brasileira para compartilhar experiências, conhecimentos e estratégias voltadas ao fortalecimento das economias desenvolvidas nos territórios.
Na abertura do curso, o coordenador-geral da Coiab, Toya Manchineri, destacou que pensar a economia indígena exige refletir sobre a relação dos povos com o mercado, mas também sobre a necessidade de preservar e fortalecer seus próprios modos de vida. “Nós precisamos pensar uma economia que fortaleça o nosso modo de vida, e não que nos transforme apenas em servidores ao grande mercado.”
Para Toya, a discussão econômica precisa estar associada a uma estratégia mais ampla de fortalecimento dos povos indígenas, considerando seus territórios, conhecimentos e formas próprias de organização.

A gerente do Cafi, Gracinha Manchineri, destacou o papel da formação como instrumento de fortalecimento das organizações indígenas. “Toda a formação realizada pela Coiab, através do Cafi, sai do território e ao território retorna.”
Segundo Gracinha, a proposta de trabalhar com economias indígenas está diretamente relacionada aos sistemas de conhecimento dos povos e à maneira como esses conhecimentos se articulam com o território, a vida, a cosmologia e as dimensões sociais e culturais.

Experiências
Representando o Conselho Indígena de Roraima (CIR), Davison Buckley apresentou experiências desenvolvidas pelas comunidades indígenas de Roraima e destacou a relação direta entre território, produção e continuidade dos modos de vida. “Sem território a gente não vai conseguir desenvolver nada. Sem território ninguém vai produzir nada.”
O vice-coordenador da Opiroma, Nimon Oroeu, destacou a importância de aproveitar a formação para compartilhar conhecimentos e multiplicar as experiências nos territórios. “Às vezes, a gente aprende com vocês, vocês aprendem com a gente, essa troca ajuda a fortalecer as nossas comunidades.”
Mulheres e economia indígena
A participação das mulheres foi outro tema de destaque durante o curso. A vice-coordenadora da União das Mulheres Indígenas da Amazônia Brasileira (Umiab), Maura Diloane dos Anjos Sarmento, ressaltou a importância do trabalho desenvolvido pelas mulheres nos territórios. “São mãos que tecem, que criam, cabeças que pensam, que fazem a questão da agricultura familiar para sua subsistência.”
Maura destacou que as mulheres indígenas desempenham papel fundamental em diferentes atividades econômicas, desde o artesanato até a agricultura familiar, e que o fortalecimento de sua autonomia econômica também pode contribuir para o enfrentamento das diversas formas de violência.

O papel das organizações indígenas
A formação também abriu espaço para que representantes das organizações estaduais apresentassem suas estruturas, desafios e experiências. Representando a Coordenação das Organizações e Articulações dos Povos Indígenas do Maranhão (Coapima), Heraldo Guajajara destacou o papel da organização na defesa dos direitos dos povos indígenas e no fortalecimento das comunidades. “É uma rede, é uma ligação com outras instituições, os parentes de outras regiões e outros estados.”

Economia para além do mercado
As experiências apresentadas pelas lideranças mostraram que a economia indígena possui características próprias e não pode ser compreendida apenas a partir da lógica convencional de mercado.
Agricultura familiar, artesanato, criação comunitária, produção de alimentos, turismo, festivais tradicionais e outras atividades fazem parte de sistemas econômicos que também envolvem cultura, território, segurança alimentar, conhecimentos tradicionais e organização comunitária.
Durante as discussões, as lideranças ressaltaram que a comercialização pode ser uma ferramenta importante, mas não deve determinar os modos de vida dos povos.
A preocupação central é construir estratégias que permitam às comunidades gerar renda e fortalecer suas atividades sem perder o controle sobre seus conhecimentos, territórios e formas próprias de organização.
Sobre o curso de Economias Indígenas
Realizado pelo Cafi, o Curso de Economias Indígenas é uma iniciativa do Projeto Redes Indígenas da Amazônia, com parceria da TNC e o apoiador Fundo Amazônia /BNDES e reuniu representantes dos nove estados da Amazônia Brasileira. A ementa do curso foi focada no aprofundamento da gestão de iniciativas econômicas comunitárias, abordando ferramentas práticas para avaliar governança, cultura de gestão, saúde financeira.
A programação também guiou os participantes na construção de diagnósticos participativos dos territórios e negócios, avaliando impactos socioambientais para a elaboração de planos de ação concretos. Além disso, a formação capacitou as lideranças para o acesso a mercados e comercialização institucional, detalhando as políticas de compras públicas, com foco no PAA e PNAE, englobando orientações sobre documentação, logística, precificação e a elaboração prática de propostas de fornecimento.
Foto: Carolina Givoni/Ascom Coiab
