Criação do Parque Nacional do Rio Tanaru representa avanço na proteção da memória e dos direitos indígenas, destaca Coiab

Área que abrigou o último sobrevivente de um povo indígena isolado passa a contar com proteção permanente, fortalecendo a defesa dos direitos indígenas e da Amazônia.

Por: Carolina Givoni

Publicada em: 11/06/2026 às 15:19

A Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) celebra a criação do Parque Nacional dos Povos Indígenas do Rio Tanaru, em Rondônia, oficializada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva nesta quarta-feira (10). A nova Unidade de Conservação federal, sob gestão do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), representa um marco histórico para a preservação ambiental, a proteção da memória dos povos indígenas e a reparação de injustiças históricas cometidas contra povos originários da Amazônia.

Com aproximadamente 7,6 mil hectares, o parque foi criado como parte de um conjunto de decretos que ampliam e fortalecem a rede de áreas protegidas do Brasil, garantindo a conservação de cerca de 100 mil hectares nos biomas Amazônia e Caatinga. A medida atende ainda à determinação do Supremo Tribunal Federal (STF), no âmbito da ADPF 991, para assegurar proteção permanente ao território de Tanaru.

A área tornou-se símbolo da resistência indígena após abrigar o último sobrevivente de um povo isolado exterminado por sucessivos processos de invasão e violência territorial. Conhecido nacionalmente como “Índio do Buraco”, ele viveu sozinho por mais de duas décadas até sua morte, em 2022, tornando-se um dos mais emblemáticos retratos das violações históricas sofridas pelos povos indígenas isolados no Brasil.

Para a Coiab, a criação do parque representa um reconhecimento da importância de preservar não apenas a floresta amazônica, mas também a memória material e imaterial dos povos que habitaram a região.

“Tanaru é um território que carrega uma profunda memória de resistência, mas também de dor. A criação deste parque representa um passo importante para que a história dos povos que viveram naquela região não seja apagada. Estamos falando de um processo de reparação histórica diante de um genocídio que marcou a trajetória dos povos indígenas isolados na Amazônia. Proteger Tanaru é proteger a memória, a verdade e os direitos dos povos indígenas para as futuras gerações”, afirma o coordenador-geral da Coiab, Toya Manchineri.

A organização destaca que a criação da unidade resulta de uma longa mobilização do movimento indígena, aliada a estudos técnicos, consultas públicas e articulação institucional envolvendo o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), o ICMBio, a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e diversas organizações indígenas.

Segundo a coordenadora-secretária da Coiab, Marciely Ayap Tupari, a criação do parque não representa apenas uma medida administrativa, mas uma conquista construída a partir da mobilização indígena em defesa do território.

“Não foi algo dado para nós, foi uma conquista do movimento indígena. Se dependesse apenas do Estado, aquela área não seria protegida. A criação do parque foi uma alternativa construída para garantir a preservação daquele território e manter viva a memória do último indígena de Tanaru”, destaca Marciely.

Ela reforça ainda que a criação da unidade também representa um alerta sobre a urgência da proteção dos povos indígenas isolados e seus territórios.

“Isso serve como um lembrete de que o Estado brasileiro precisa demarcar os territórios indígenas, principalmente aqueles onde há presença de povos isolados. Precisamos evitar que outros povos passem pelo que aconteceu em Tanaru, marcado pela violência, pela pressão fundiária e pelo genocídio”, afirma.

Durante as discussões que antecederam a criação do parque, lideranças indígenas defenderam mecanismos que garantam gestão participativa, proteção integral da área, preservação dos sítios arqueológicos e respeito à memória dos povos que viveram no território. Também foram apresentadas propostas voltadas à criação de espaços de memória, pesquisa e educação, fortalecendo o papel do parque como referência de justiça histórica e proteção socioambiental.

Marciely também ressalta que a proteção da área simboliza uma reparação histórica diante das violências sofridas pelo povo de Tanaru.

“Manter aquele território protegido é uma reparação histórica e uma forma de manter viva a memória dele. O povo de Tanaru sofreu um extermínio e foi vítima de um genocídio. Preservar esse território é garantir que essa história não seja esquecida”, conclui.

A Coiab reforça que a efetividade da medida dependerá da implementação de ações permanentes de fiscalização, monitoramento e participação indígena na gestão da unidade, assegurando que o território permaneça protegido das pressões econômicas e fundiárias que historicamente ameaçaram a região.

A criação do Parque Nacional dos Povos Indígenas do Rio Tanaru consolida um modelo de proteção que une conservação ambiental, direitos humanos e reconhecimento da contribuição dos povos indígenas para a preservação da Amazônia, fortalecendo o compromisso do Estado brasileiro com a memória, a justiça e a proteção dos territórios tradicionais.

Foto: Divulgação