Com nova metodologia, Coiab inicia curso de longa duração para lideranças indígenas

Ao todo, 30 lideranças da Amazônia brasileira receberão formação de três meses em eixos como história e direito indígenas, gestão territorial e cuidado com a vida

Por: Valdeniza Vasques

Publicada em: 24/02/2026 às 16:11

Começou, nesta segunda-feira (23), a segunda edição da Formação Estratégica para Lideranças Indígenas, uma iniciativa da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) para promover formação a homens e mulheres indígenas que atuam no movimento, fortalecendo suas habilidades e conhecimentos para que sejam gestores eficazes em seus territórios e comunidades.

O curso é uma realização pelo Centro Amazônico de Formação Indígena (Cafi) e integra o projeto Redes Indígenas da Amazônia, desenvolvido pela Coiab em parceria com a The Nature Conservancy (TNC) Brasil, com recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), através do Fundo Amazônia. O projeto tem o objetivo de promover estruturas, ferramentas e capacidades institucionais e técnicas para as nove organizações indígenas nos estados da Amazônia Legal, além da União das Mulheres Indígenas da Amazônia (Umiab).

A nova edição do curso traz uma nova metodologia, voltada para a integração e o sentido da dimensão territorial dos alunos, assim como desafios atuais dos povos indígenas. Ao todo, 30 lideranças dos nove estados da Amazônia brasileira reúnem-se em Manaus/AM durante três meses para receber aulas sobre história do movimento indígena, construção do direito indígena, proteção, monitoramento e gestão do território e cuidado com a vida, além de aulas diárias de inglês e espanhol.

Uma característica importante do curso da Coiab é a paridade de gênero entre os alunos, com número igual de homens e mulheres. Esta medida é para incentivar cada vez mais a representatividade feminina indígena nos espaços de luta, com vez e voz para as mulheres da Amazônia brasileira.

A aula inaugural ocorreu nesta segunda-feira na sede da Coiab, na capital amazonense, reunindo representantes da rede Coiab, Umiab e parceiros. O coordenador-geral da Coiab, Toya Manchineri, destacou:

“Lideranças não nascem prontas, elas precisam ser qualificadas e adquirir conhecimento para lutar suas batalhas. Para isso o Cafi foi criado, como uma iniciativa das antigas lideranças que sonhavam em criar a primeira universidade indígena brasileira. Esse sonho ainda não se concretizou, mas por meio de iniciativas como o curso de longa duração, nós podemos formar e qualificar novas lideranças, pensando no futuro do movimento indígena para daqui a 15, 20 anos. Ofertar um curso desta qualidade e tamanho é muito importante para fortalecer as lideranças a assumirem seu papel na Coiab e em suas comunidades.”

O coordenador do projeto Redes Indígenas da Amazônia pela TNC Brasil, Fernando Bittencourt, enfatizou a parceria entre as organizações, que vem rendendo bons resultados há anos. “Esse curso é um dos principais produtos desta parceria, com muitos casos de sucesso, de alunos que se formaram e anos depois vemos como lideranças, ocupando papéis de destaques em suas organizações, em casas legislativas, no próprio movimento. É um processo árduo e longo, mas com resultados”, disse.

A coordenadora-tesoureira da Coiab, Dineva Kayabi – que foi aluna da primeira edição do curso, em 2025 – desejou um processo formativo proveitoso para todos os cursistas.

“Não é fácil deixar seu território, por isso agradeço a cada um que está aqui hoje. Vocês já são lideranças, mas, com esse curso, vão ganhar ainda mais força. É um aprendizado muito grande, e reflete o compromisso dos que saíram da base para cá, para viver este momento desafiador, mas de muito compromisso e responsabilidade. Como Coiab, estamos felizes por vocês, que um dia poderão estar aqui, no nosso lugar como coordenação ou como lideranças dentro de seus estados”, afirmou.

Estrutura do curso

O curso terá duração de três meses, com aulas presenciais na Escola Superior de Ciências Sociais da Universidade do Estado do Amazonas (ESO/UEA). As aulas de inglês e espanhol serão lecionadas por professores da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Amazonas (FLET/Ufam). A formação será dividida em três eixos e seis módulos:

Eixo 1 – História do Movimento na Amazônia e a Construção do Direito Indígena

Módulo 1 – Formação de Quadros Políticos Campo de Prática Política – Vivência no Acampamento Terra Livre (ATL)

Eixo 2 – Proteção, monitoramento e gestão dos territórios indígenas

Módulo 2 – Financiamento Direto para Povos Indígenas

Módulo 3 – Monitoramento Territorial

Módulo 4 – Adaptação Climática e Finanças Verdes

Eixo 3 – Cuidado com a vida: saúde, gênero, infância e juventude

Módulo 5 – Saúde Mental, Ambiental e Climática

Módulo 6 – Gênero, Infância e Juventude

Ao longo do curso, os alunos elaborarão artigos científicos sobre temas estratégicos para o movimento indígena, como mineração; mudanças climáticas; Decreto nº 12.600/2025 sobre concessão de rios amazônicos para a iniciativa privada; e saúde mental.

Fotos: Nathalia Apurinã