Coiab reforça defesa das línguas indígenas em evento da Unesco pelo Dia Internacional da Língua Materna

Participação destacou a importância da diversidade linguística, da cooperação regional e do protagonismo indígena na proteção dos territórios e saberes ancestrais.

Por: Carolina Givoni

Publicada em: 24/02/2026 às 11:26

A Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) participou, nesta segunda-feira (23), do evento virtual em alusão ao Dia Internacional da Língua Materna, promovido pela Unesco. Representando a organização na Bacia Amazônica, a coordenadora Angela Kaxuyana destacou a relevância das políticas e direitos linguísticos na Amazônia, com atenção especial à implementação da Resolução nº 20.

“A proteção das línguas indígenas está diretamente ligada à defesa dos territórios, à transmissão dos conhecimentos ancestrais e à autonomia dos nossos povos”, afirmou Angela. Ela reforçou que o fortalecimento dos idiomas originários é essencial para garantir a continuidade das identidades culturais e da organização social das comunidades indígenas.

O encontro reuniu organizações indígenas, representantes governamentais e organismos internacionais para discutir estratégias de preservação, revitalização e promoção das línguas amazônicas, muitas das quais estão em risco de extinção. Participantes ressaltaram que essas línguas funcionam como repositórios de conhecimento tradicional, governança territorial e conservação ambiental.

Durante as intervenções, foi destacado o caráter transfronteiriço das línguas amazônicas, que exige cooperação bilateral, subregional e multilateral entre países da região, envolvendo organismos como OTCA/ACTO, Mercosul e integrações centro-americanas. Entre os instrumentos propostos, figuram planos nacionais e regionais, políticas públicas, formação de professores bilíngues, homologação de títulos docentes, censos linguísticos, produção de material escrito e audiovisual, além de rádios comunitárias.

Angela Kaxuyana enfatizou a importância do uso de tecnologias e presença digital para a revitalização linguística, incluindo ferramentas de inteligência artificial inclusiva. “É necessário garantir que a tecnologia não amplie desigualdades entre línguas com muitos recursos e aquelas que têm menos presença digital”, afirmou.

O papel central das comunidades, famílias, mulheres e juventude também foi destacado como essencial na transmissão intergeracional e na produção de conteúdos culturais e educativos. “Precisamos fortalecer alianças e estimular a participação efetiva das lideranças indígenas para assegurar que as futuras gerações mantenham vivas suas línguas e culturas”, disse Angela.

O evento apresentou boas práticas e experiências de Brasil, Peru, Guatemala e Honduras, incluindo universidades indígenas, encontros internacionais de falantes e centros regionais de línguas indígenas, além de iniciativas como a produção de materiais didáticos bilíngues. Uma proposta em negociação na ACTO/OTCA prevê a criação de um “Atlas” regional de línguas amazônicas, planos de trabalho ligados à Resolução nº 20, alocação de recursos e mecanismos de cooperação técnica.

Entre as próximas etapas sugeridas estão: compartilhar materiais e documentação das iniciativas; formalizar acordos de cooperação sub-regional; desenvolver e fortalecer planos nacionais, políticas públicas e programas de capacitação; promover presença digital e ferramentas tecnológicas inclusivas; incluir mulheres e juventude nas estratégias de revitalização; e consolidar dados para a construção do Atlas regional das línguas amazônicas.