Coiab fortalece defesa dos povos indígenas e da Amazônia na 25ª sessão do Fórum Permanente da ONU

Por: Valdeniza Vasques

Publicada em: 12/05/2026 às 10:47

A Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) participou da 25ª sessão do Fórum Permanente da ONU sobre Questões Indígenas (UNPFII 2026), realizada entre os dias 20 de abril e 1º de maio, em Nova York, levando ao cenário internacional pautas centrais para os povos indígenas da Amazônia, como proteção territorial, financiamento climático e defesa dos povos indígenas isolados e de recente contato (PIIRC).

A presença da delegação amazônica reafirmou a importância da incidência indígena nos debates globais sobre clima, direitos humanos e justiça socioambiental. Entre os representantes da Coiab estiveram a assessora internacional Alana Manchineri e a assessora jurídica Auzerina Macuxi, além de lideranças indígenas da Amazônia brasileira, como Socorro Baniwa, da União das Mulheres Indígenas da Amazônia Brasileira (Umiab); Oscar Apinajé, da Articulação dos Povos Indígenas do Tocantins (Arpit); e Maria Helena Gavião, da Coordenação das Organizações e Articulações dos Povos Indígenas do Maranhão (Coapima).

Durante a programação do Fórum, a Coiab participou da sessão “Defending the Right to Health through Territory” (“Defendendo o Direito à Saúde por meio do Território”), realizada na sede das Nações Unidas. O encontro destacou que, para os povos indígenas isolados e de recente contato, a saúde está diretamente ligada à preservação dos territórios e das florestas.

“Ao defender a floresta, estamos defendendo um sistema de saúde único e vital que existe há milênios”, destacou a organização durante a atividade, que reuniu lideranças indígenas e especialistas internacionais.

O painel contou com a participação de Jorge Perez, presidente da Asociación Interétnica de Desarrollo de la Selva Peruana (AIDESEP); Auzerina Macuxi; Jamer Lopez; Elizabeth Swanson Andi; Beatriz Huertas; e José Proaño. A atividade teve apoio da Rainforest Norway e reforçou que a construção de uma transição justa e de um planeta saudável passa necessariamente pela proteção legal e física dos territórios dos PIACI.

O impacto da mineração nos territórios e na saúde indígena foi destacado por Socorro Baniwa em fala durante sessão no fórum. A liderança denunciou os efeitos da contaminação por mercúrio, principalmente em crianças e mulheres.

“A Amazônia vive uma grave crise, com centenas de casos de contaminação por mercúrio entre os povos Yanomami e Munduruku, inclusive desde a gestação. Essa realidade segue invisibilizada. A omissão também contamina. O mercúrio tem sido instrumento de expulsão e destruição dos nossos modos de vida. Não há saúde indígena sem o fim da mineração em nossos territórios”, disse. Socorro enfatizou a urgência do avanço da Recomendação 39, que prega a ampliação do atendimento às pessoas afetadas por mercúrio, priorizando mulheres e crianças, com equipes capacitadas e centros especializados.

“É preciso reparar os danos que resultam da violência de gênero ligada à mineração, e garantir uma resposta imediata, com participação dos Povos Indígenas”, defendeu Socorro.

NDC Indígena

As seis prioridades definidas pelos povos indígenas da Bacia Amazônica na NDC Indígena foram relembradas durante a agenda na ONU: o reconhecimento e proteção de todos os territórios indígenas como política e ação climática, em especial os territórios com presença de povos indígenas isolados e de recente contato; financiamento direto e autonomia financeira; representação e participação efetiva nos espaços de decisão climática; proteção dos defensores e defensoras indígenas; inclusão de sistemas de conhecimento indígena como estratégias de mitigação, adaptação e restauração ambiental; e estabelecimento dos territórios indígenas da Amazônia como áreas livres de atividades extrativas.

A partir desses pontos, a Coiab recomendou que o Fórum endosse a NDC apresentada, assim como defenda junto às presidências da COP30 e da COP31 que o mapa do caminho para longe dos combustíveis fósseis inclua os territórios indígenas como zonas livres de exploração.

San Francisco Climate Week

Além da atuação no Fórum Permanente, a Coiab também esteve presente na San Francisco Climate Week, na Califórnia (EUA), durante a mesa “Liderança Indígena na Linha de Frente: Por que as Soluções Climáticas Devem Começar com a Proteção das Florestas”.

Na ocasião, Alana Manchineri apresentou o projeto Corredores Transfronteiriços, iniciativa estratégica voltada à proteção dos povos indígenas isolados e de recente contato na região de fronteira entre Brasil e Peru. A proposta busca fortalecer mecanismos de proteção territorial integrados entre os países amazônicos e ampliar a cooperação internacional em defesa dos povos originários.

Os debates internacionais também abordaram financiamento climático e mecanismos de acesso direto para povos indígenas e comunidades locais, com destaque para o Tropical Forest Forever Facility (TFFF). Durante os encontros, a Coiab defendeu a centralidade da autonomia indígena na gestão dos recursos climáticos.

Para a organização, os próprios povos indígenas devem definir formatos, metodologias e tempos de implementação dos projetos financiados. A participação também evidenciou experiências já em andamento, como os fundos indígenas e a Rede de Fundos Comunitários, apontados como caminhos concretos para fortalecer modelos próprios de financiamento construídos a partir dos territórios.

A participação da Coiab nas agendas internacionais contou com apoio do Podáali – Fundo Indígena da Amazônia Brasileira, da COICA, Rainforest Norway, TNC Brasil e Bezos Earth Fund, além do suporte técnico de Edda Fernandez e Gisela Hurtado.