A Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) por meio do Centro Amazônico de Formação Indígena (Cafi), formou mais de 40 lideranças indígenas no curso ‘Economias Indígenas – Construindo novos modelos de Desenvolvimento no século 21’, que aconteceu entre os dias 15 e 17 de agosto, em Araguaína, no Tocantis. O encontro ainda estabeleceu um marco educacional ao desenhar o primeiro programa de mestrado em Economias Indígenas do País, com a participação dos representantes de diversas regiões da Amazônia Indígena.
Desenvolvido com o apoio do programa Amazônia Sempre do Grupo BID e do projeto Amazônia Viva, financiado pelo Governo da Suécia, a formação voltada para jovens, mulheres e homens que lideram e atuam na defesa dos territórios, na gestão coletiva e na articulação política e cultural, trouxe discussões e propôs exercícios estratégicos para contextualizar o cenário político e econômico do país e mundo, habilitando os participantes para ocupar o centro das discussões econômicas com uma nova visão de desenvolvimento sustentável tendo como base o conhecimento dos povos originários.
“Estamos dando um passo importante no desenvolvimento de um pensamento econômico que nasce da nossa cosmovisão e da relação com o próprio território. As economias indígenas são sistemas complexos de reciprocidade, territorialidade, manejo sustentável e proteção da sociobiodiversidade. Ou seja, não são um modelo alternativo, mas próprio e qualificado para ensinar ao Brasil e o mundo um novo modo de pensar a economia. Ao promovermos essa formação às nossas lideranças, estamos abrindo novas possibilidades para que ocupem espaços no centro do debate e assim fortalecemos nossa autonomia e a incidência política diante do Estado”, declara Toya Manchineri, coordenador-geral da Coiab.

Toya Manchineri, coordenador-geral da Coiab, durante conversa com os alunos.
O curso seguiu uma metodologia participativa, que combinou exposições dialogadas, rodas de conversa e trocas de experiências entre os participantes. A formação introdutória e crítica uniu teoria, prática e diálogo intercultural e contará com a formação de mais duas turmas, tendo como foco o estudo dos fundamentos da economia, da análise de conjuntura política e dos fundamentos da economia indígena.
Valéria Paye, diretora executiva do Fundo Podáali, destacou o trabalho que o fundo realiza ao traduzir as discussões realizadas em ações dentro dos territórios.
“Hoje, a Coiab está estruturando sua gerência para tratar desse tema, que visa a sustentabilidade e a autonomia dos povos indígenas. É um debate amplo, construído a partir das realidades, das demandas e dos desafios concretos que os povos trazem, para construirmos uma orientação geral que nos ajude. Falo a partir do Podáali: o que se constrói aqui é importante para orientar as ações de apoio direto aos povos, comunidades e organizações indígenas da Amazônia brasileira neste tema”, disse Valéria.

Valéria Paye, diretora executiva do Fundo Podáali, durante participação no curso.
Um novo passo em direção ao mestrado indígena da Amazônia
Durante o curso, as lideranças participaram ativamente da construção da proposta de um programa de mestrado focado na Economia Indígena, o primeiro do país e da Amazônia. Gracinha Manchineri, gerente do Cafi, afirmou que a formação técnica representa uma oportunidade histórica de repensar a economia e a democracia do Brasil a partir das vivências que as lideranças trazem dos territórios.
“Nosso objetivo ao realizar este curso é oferecer aos alunos as ferramentas para dialogar de forma crítica com os fundamentos da economia convencional, utilizando como base os saberes e práticas tradicionais dos seus territórios. Finalizamos com o entusiasmo de viver um momento importante na transformação destes conhecimentos em uma área de pesquisa acadêmica: junto com as lideranças presentes nesta turma, consolidamos o primeiro passo na construção do programa de mestrado em Economia Indígena” afirma a gerente do Cafi.
A Coiab construiu esse momento como base para futuras formações, em especial para o desenho do mestrado, que terá como objetivo sistematizar os conhecimentos produzidos e consolidar este campo como legítimo na academia brasileira, garantindo que o conhecimento retorne ao território, fortaleça a autonomia das lideranças e amplie sua capacidade de incidência política e democrática frente ao Estado.
Zenilda Kumaruara é uma das lideranças contempladas nesta formação. Coordenadora da Terra Indígena Kumaruara, localizada na região do Baixo Tapajós, no município de Santarém, no Pará, a aluna do curso enfatizou a importância do curso para o fortalecimento dos territórios e como espaço de construção coletiva através do compartilhamento de experiências entre os participantes.
“Na aula sobre análise de conjuntura entendemos a importância de perceber o cenário econômico, político e social no Brasil para nos posicionarmos. O Cafi trouxe essa oportunidade para que possamos compartilhar este conhecimento com nosso povo e fazermos uma boa análise daquilo que estamos vivendo, é muito importante compreendermos que temos riquezas dentro dos nossos territórios: nossas florestas, nossos rios, nossa produção, nosso modo de vida e toda diversidade cultural. Por isso é importante compreender o cenário para defendê-los”, disse Zenilda.

Zenilda Kumaruara, aluna do curso Economias Indígenas – Construindo novos modelos de Desenvolvimento no século 21.
Este é um importante passo para que o conhecimento construído há séculos pelos povos indígenas seja reconhecido e ocupe o centro dos debates nacionais e internacionais sobre os modelos de desenvolvimento do século 21.
Sobre a Coiab
Fundada em 19 de abril de 1989, a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) surge da articulação de lideranças de organizações indígenas existentes para representação na luta pelos direitos originários. A Coiab é o resultado do processo de luta política dos povos indígenas pelo reconhecimento e exercício de seus direitos, em um cenário de transformações sociais e políticas ocorridas no Brasil após a Constituição Federal de 1988.
Sobre o Projeto Amazônia Viva
O projeto “Amazônia Viva: Fortalecendo Povos e Comunidades Tradicionais, seus territórios e a conservação da biodiversidade” é uma iniciativa da COIAB, financiada pelo Governo da Suécia, por meio da Agência Sueca de Cooperação para o Desenvolvimento Internacional (SIDA), e implementada em parceria com o WWF-Brasil, no âmbito do programa Together for People and Planet (ToPP).
Sobre o Amazônia Sempre
Amazônia Sempre é o programa regional de coordenação do Grupo BID que visa proteger a biodiversidade e acelerar o desenvolvimento sustentável por meio de três linhas de ação: ampliação do financiamento, promoção da troca de conhecimento e facilitação da coordenação regional entre os oito países amazônicos.
Sobre o Grupo BID
O Grupo Banco Interamericano de Desenvolvimento (Grupo BID) é a principal fonte de financiamento e conhecimento para melhorar vidas na América Latina e no Caribe. É composto pelo BID, que trabalha com o setor público da região e facilita a atuação do setor privado; pelo BID Invest, que apoia diretamente empresas e projetos privados; e pelo BID Lab, que estimula a inovação empreendedora.
