ATL 2026: indígenas denunciam ameaças e exigem garantia de direitos territoriais 

Por: Valdeniza Vasques

Publicada em: 06/04/2026 às 17:55

Lideranças indígenas da Amazônia brasileira denunciaram invasões, episódios de violência e ameaças dentro de seus territórios no primeiro dia do Acampamento Terra Livre (ATL), nesta segunda-feira, dia 6, em Brasília. Os relatos ocorreram durante roda de conversa sobre a situação jurídica das Terras Indígenas (TIs) na Amazônia, na tenda da Coiab. Os indígenas exigiram que os processos de demarcação, incluindo a desintrusão (retirada de ocupantes ilegais), sejam realizados de forma mais eficaz, com garantia de proteção às vidas indígenas.

Concita Sompré, da Federação dos Povos Indígenas do Estado do Pará, afirma que a desintrusão traz benefícios, mas também preocupações para os povos indígenas. Ela cita o caso da TI Apyterewa, que passou pela retirada de invasores entre 2023 e 2024, mas que segue como cenário de ataques promovidos por grileiros e ruralistas contra os indígenas.

“O pós-desintrusão da TI Apyterewa tem violência, tiros, insegurança e lideranças encurraladas, sem direito de ir e vir. O Estado ‘desintrusa’, mas a garantia da vida não permanece. Somos nós por nós, defendendo nosso povo e território. Quando os invasores são retirados, eles deixam para trás áreas degradadas; eles ficam no entorno do território, e isso aumenta a violência. Nossa luta maior é pela demarcação, mas fazemos um grito de socorro pela retirada dos invasores do nosso território”, disse Concita.

Outra TI em risco é Uru-Eu-Wau-Wau, no estado de Rondônia. Em fevereiro deste ano, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, suspendeu a desintrusão do território, aumentando a insegurança jurídica e a vulnerabilidade em uma terra já sob ameaça.

“A desintrusão não foi concluída 100% e só deixou os invasores mais bravos com nós, indígenas. Não podemos mais andar sem escolta no território. A TI concentra as principais nascentes que abastecem o estado, uma verdadeira ‘caixa d’água’ para Rondônia, mas os invasores só querem desmatar e lucrar em cima da terra. Precisamos fazer a desintrusão acontecer”, defende a jovem liderança.

Os indígenas também denunciaram a demora no processo de demarcação como um todo, com terras indígenas esperando há mais de 20 anos pela homologação da demarcação. É o caso da TI Kapôt Nhinore, no Mato Grosso e Pará, cujos estudos sobre a terra iniciaram em 2004 e somente em 2023 foi delimitada; e da TI Urubu Branco, também em Mato Grosso, cujos povos lutam há 26 anos pela desintrusão.

“O processo de demarcação no Brasil é muito alongado. Estamos há mais de 20 anos no aguardo na TI Riozinho do Iaco. Essa é a realidade da política indigenista no Brasil, a demora. É uma luta intergeracional, de avô para pai, de pai para filho. Isso significa que os parentes mais velhos não verão seu território demarcado. Imagine a tristeza. Temos agora a lei do Marco Temporal e um Congresso contra as políticas indígenas”, declarou Wuriu Manchineri, da Manxinerune Tsihi Pukte Hajene (Matpha), do estado do Acre.

A programação da Coiab no Acampamento Terra Livre 2026 segue até o dia 11 de abril. Acompanhe a transmissão das atividades ao vivo no Youtube da organização.

Fotos: Kaiti Topramre