Coiab alerta para avanço da extrema direita na Amazônia e riscos aos direitos dos povos indígenas

Resultado das eleições de 2026 evidencia crescimento do bolsonarismo em estados da região e reacende debate sobre diferentes projetos para a Amazônia e seus territórios

Por: Coiab

Publicada em: 10/10/2026 às 11:15

A Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) alerta para o avanço de forças políticas de extrema direita em diferentes estados da Amazônia após o primeiro turno das eleições de 2026. O crescimento do bolsonarismo, representado na disputa presidencial por Flávio Bolsonaro (PL), ocorre em uma região marcada por conflitos e disputas em torno da demarcação das terras indígenas, da proteção ambiental, da exploração mineral e da expansão de atividades econômicas sobre territórios tradicionais.

Para a Coiab, o resultado das urnas precisa ser compreendido também como uma disputa entre diferentes projetos de futuro para a Amazônia. De um lado, os povos indígenas defendem a vida, a proteção dos territórios, a preservação da biodiversidade e o enfrentamento da crise climática. De outro, avançam propostas de desenvolvimento baseadas na expansão do agronegócio, no uso intensivo de agrotóxicos, na exploração de recursos naturais e em atividades que podem ampliar a poluição, o desmatamento e a degradação ambiental. Para a organização, esses modelos colocam em debate não apenas o destino da floresta, mas também os direitos dos povos indígenas, a soberania sobre os territórios e as condições de vida das próximas gerações.

A organização chama atenção ainda para o peso estratégico dos chamados ativos ambientais existentes na Amazônia brasileira, especialmente aqueles protegidos dentro das terras indígenas (TIs). Esses territórios concentram parte significativa da biodiversidade, dos recursos hídricos, dos estoques de carbono e de outros bens naturais estratégicos para o equilíbrio climático. Por isso, a proteção das TIs também envolve interesses econômicos e geopolíticos que ultrapassam as fronteiras brasileiras.

Na avaliação da Coiab, qualquer projeto político que amplie a pressão sobre esses territórios precisa ser analisado também à luz dos interesses nacionais e internacionais relacionados à exploração de recursos naturais e à transformação dos ativos ambientais da Amazônia em capital econômico. Para os povos indígenas, esses territórios não são mercadorias ou reservas de recursos a serem explorados, mas espaços de vida, cultura, espiritualidade, autonomia e reprodução dos modos de existência.

A distribuição dos votos no primeiro turno também evidencia diferentes visões sobre o futuro da região. Flávio Bolsonaro terminou a primeira etapa da disputa à frente em estados como Acre, Rondônia, Roraima, Mato Grosso e Tocantins, enquanto Luiz Inácio Lula da Silva (PT) venceu no Amazonas, Pará e Amapá. Para a Coiab, esse cenário evidencia a força de correntes desenvolvimentistas em parte da Amazônia, associadas a modelos de crescimento econômico que podem entrar em conflito com os projetos de vida defendidos pelos povos indígenas e com a proteção de seus territórios.

A experiência do governo de Jair Bolsonaro demonstrou, segundo a Coiab, os impactos de uma agenda política que enfraqueceu políticas de proteção territorial e ampliou as pressões sobre áreas protegidas. Durante aquele período, os povos indígenas enfrentaram conflitos relacionados a invasões, garimpo ilegal, desmatamento e exploração de recursos naturais, além de embates políticos em torno de direitos assegurados pela Constituição Federal.

A Coiab manifesta preocupação com a possibilidade de que práticas, programas e orientações adotados durante o governo de Jair Bolsonaro voltem a ganhar espaço em uma eventual gestão de Flávio Bolsonaro. Para a organização, o histórico do primeiro governo, marcado por conflitos em torno da proteção territorial, pela pressão sobre terras indígenas e por uma visão de desenvolvimento que priorizou a exploração econômica de recursos naturais, exige atenção diante do resultado eleitoral. A Coiab repudia políticas e medidas daquele período que, em sua avaliação, enfraqueceram a proteção dos povos e de seus territórios e considera que a possibilidade de retomada de iniciativas semelhantes representa um motivo de preocupação para o futuro da Amazônia e para os direitos assegurados aos povos indígenas.

A organização também considera necessário preservar e ampliar os avanços obtidos na saúde indígena nos últimos anos, evitando o retorno de medidas que possam reduzir recursos, enfraquecer a estrutura de atendimento ou comprometer a assistência às comunidades. Para a Coiab, a manutenção de políticas públicas estruturantes é fundamental para garantir atendimento adequado aos povos indígenas, especialmente diante das dificuldades logísticas e das desigualdades históricas enfrentadas pelas comunidades na Amazônia.

Os projetos, discursos e campanhas do candidato Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República demonstram, na avaliação da Coiab, que parte desse projeto político permanece presente na Amazônia. O resultado eleitoral reforça, portanto, a necessidade de acompanhar não apenas os discursos sobre desenvolvimento econômico, mas também seus possíveis impactos sobre as terras indígenas, a biodiversidade, os recursos naturais e as políticas públicas destinadas aos povos originários.

A Coiab considera que esse cenário reforça a necessidade de organização e mobilização permanente dos povos indígenas. A defesa dos territórios não pode ser dissociada da participação política e da presença indígena nas instituições responsáveis por definir políticas que afetam diretamente suas vidas, suas terras e seus modos de existência.

Nesse contexto, as eleições de 2026 também revelaram a força das candidaturas indígenas. O país registrou 191 candidaturas indígenas, o maior número desde que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) passou a reunir dados de raça e cor das candidaturas. Na Amazônia Legal, foram 80 candidaturas.

Entre os resultados, a Coiab destaca Vanda Witoto (MDB), do povo Witoto, alcançou 43.891 votos na disputa por uma vaga na Câmara dos Deputados e ficou como segunda suplente do partido. A votação também colocou a liderança indígena entre os candidatos mais votados para deputado federal no estado.

Outras candidaturas indígenas também alcançaram votações expressivas nos estados da Amazônia. No Pará, Auricelia Arapiun (PSOL) recebeu 8.558 votos para deputada estadual e Alessandra Munduruku (PT) garantiu 29.624 votos na disputa para deputada federal. No Acre, Isaac Piyãko (PT), do povo Ashaninka, alcançou 5.292 votos. Em Mato Grosso, Eliane Xunakalo (PT), do povo Kurâ Bakairi, recebeu 2.648 votos.

Para a Coiab, esses resultados mostram que os povos indígenas não estão apenas acompanhando as transformações do cenário político, mas ocupando espaços, mobilizando seus territórios e apresentando seus próprios projetos para o futuro da Amazônia.

A organização considera fundamental ampliar essa presença e fortalecer a participação indígena nas instituições. A eleição de representantes indígenas contribui para levar aos espaços de decisão as demandas dos territórios e para defender direitos diante de projetos que podem afetar as terras indígenas, os modos de vida tradicionais, a biodiversidade, os recursos naturais e o equilíbrio climático da região.

O resultado das urnas também reforça que a defesa da Amazônia exige mobilização política permanente, principalmente diante do avanço de forças cujas propostas podem representar riscos aos direitos indígenas e à proteção dos territórios. A disputa não envolve apenas modelos econômicos nacionais, mas também interesses relacionados ao controle, à exploração e à valorização econômica dos recursos ambientais estratégicos da região.

A Coiab reafirma seu compromisso com a defesa das terras indígenas, da autonomia dos povos, da demarcação, da proteção das florestas, da saúde indígena e da participação efetiva dos povos indígenas nas decisões que definem os rumos da Amazônia.

A Amazônia não é apenas um território em disputa eleitoral. É território de povos que resistem, protegem a floresta e constroem, há gerações, alternativas para garantir a continuidade da vida. É a partir dos territórios e da organização dos povos indígenas que a Coiab seguirá atuando na defesa dos direitos dos povos e na construção de um futuro em que a Amazônia seja protegida por aqueles que historicamente a preservam.

Coiab, 10 de outubro de 2026.