A Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) esteve presente no 3º Encontro da Rede Conexão Povos da Floresta, realizado entre os dias 4 e 6 de agosto, na Escola Família Agroextrativista do Carvão, em Mazagão, no Amapá.
O encontro reuniu 176 participantes, representantes de 60 organizações e de 55 comunidades e territórios para compartilhar experiências, avaliar os avanços da iniciativa e construir novos compromissos voltados ao fortalecimento da conectividade, da autonomia e do acesso a direitos.
Representando a Coiab, Ludimar Kokama destacou a importância da participação indígena na construção das estratégias da Rede e da ampliação da conectividade de forma segura nos territórios.
“A Coiab se fez presente no terceiro encontro da Rede Conexão Povos da Floresta para tratarmos e avançarmos nas nossas estratégias de como alcançar os nossos territórios, levando a conectividade de forma segura”, afirmou.
Segundo Ludimar, a conectividade precisa estar associada às necessidades e às realidades dos povos indígenas, contribuindo para o fortalecimento de políticas e ações nas áreas de saúde, proteção territorial, educação e demais eixos trabalhados pela Rede.
“Também no sentido de levar uma maior perspectiva para nós, para os nossos territórios, tanto na questão de saúde, proteção territorial, educação e nos demais eixos que a Rede Conexão atua atualmente”, destacou.
Conexão Significativa
Durante os três dias de programação, os participantes discutiram temas como conectividade significativa, energia, educação, saúde, proteção territorial, cultura, empreendedorismo, segurança alimentar e participação de mulheres e juventudes.
A proposta foi reafirmar que levar internet aos territórios é apenas uma parte do processo. A conectividade precisa estar acompanhada de formação, apropriação tecnológica e autonomia para que os próprios povos possam definir como utilizar essas ferramentas de acordo com suas necessidades e prioridades.
Para Vagner Diniz, gerente do Centro de Estudos sobre Tecnologias Web (Ceweb.Br) do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br), a experiência da Rede demonstra a importância de garantir que as comunidades tenham condições de conduzir os caminhos da conectividade.
“É como a gente estar numa canoa. Se você solta essa canoa à deriva, ela vai para qualquer lugar e você não sabe exatamente o destino. Se você tem um remo, você pode ir com essa canoa para onde você quiser. Para nós, a Rede Conexão Povos da Floresta é como essa canoa com um remo”, explicou.

A escolha da Escola Família Agroextrativista do Carvão como sede do encontro também reforçou a importância da formação e da troca de conhecimentos entre gerações e comunidades.
Segundo Dalva Miranda, presidente da Associação Nossa Amazônia, mantenedora da escola, a instituição reúne cerca de 200 estudantes de diferentes biomas, dois estados, seis municípios e 157 comunidades.“Trazer um evento desse porte para cá é uma aula magna para os nossos alunos, que estão percebendo que projetos como o nosso, sociedade organizada, funcionam muito bem se forem muito bem conectados e fizerem as conexões necessárias”, afirmou.
Dalva destacou ainda que a conectividade pode contribuir diretamente para áreas como formação, saúde, cultura e produção comunitária. Segundo ela, muitos estudantes da escola já possuem em suas comunidades os kits de conectividade da Rede.
As experiências das comunidades que já utilizam as soluções da Rede também foram compartilhadas durante a programação. Maria Reginalva Godinho, moradora da Reserva Tapajós-Arapiuns, no Pará, destacou a contribuição da Formação de Agentes Comunitários de Energia para ampliar a autonomia das comunidades.
“Ter um agente comunitário de energia dentro das comunidades traz autonomia para a nossa vida, para a nossa comunidade, para o nosso território”, afirmou.
Ela também destacou a contribuição da conectividade para ampliar o acesso à saúde e possibilitar o atendimento por telemedicina, aproximando serviços de saúde de populações que enfrentam dificuldades para acessar atendimento especializado.
A experiência da Conexão Saúde também foi apresentada por Marinei Martins, da comunidade Ajamuri, em Lago Grande, Santarém (PA). Segundo ela, o sistema de telessaúde disponibilizado pela Rede facilitou o acesso dos moradores a consultas médicas em uma comunidade que possui unidade básica de saúde, mas não conta permanentemente com médicos. “Na minha comunidade melhorou muito a conexão, principalmente na chegada da telemedicina para a comunidade, que a gente pode fazer consultas online. As pessoas não precisam mais sair de casa para fazer a consulta”, relatou.
Para Marinei, a participação no encontro também representa a possibilidade de levar novos conhecimentos para a comunidade e ampliar a presença das mulheres nos espaços de decisão.“Nós mulheres precisamos nos empoderar mais ainda, precisamos colocar a nossa voz ainda mais”, afirmou.
Vivências
O segundo dia do encontro foi dedicado à vivência territorial, com visitas à comunidade de Piquiazal e ao Quilombo do Mel da Pedreira. A atividade permitiu aos participantes conhecer experiências locais, dialogar com moradores e ampliar a compreensão sobre os desafios enfrentados pelas comunidades.

A dimensão política da conectividade também esteve presente nos debates. Para Letícia Moraes, vice-presidenta do Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS), a tecnologia deve ser incorporada às estratégias dos movimentos e utilizada para fortalecer direitos e a organização comunitária.
“Nós estamos refletindo profundamente todo o aprendizado que a Rede Conexão Povos da Floresta traz ao longo da sua execução, pensando também a perspectiva política dos movimentos para essa interação entre as ferramentas disponíveis, e a conectividade é uma delas”, afirmou.
Segundo Letícia, a conectividade significativa deve contribuir para a proteção dos direitos territoriais, o fortalecimento da organização comunitária e o protagonismo de mulheres e juventudes.
Novos compromissos
O encerramento do encontro foi marcado pela definição de uma agenda de compromissos construída a partir das discussões realizadas nos grupos de trabalho da Rede. Entre as prioridades estão a ampliação da formação de Agentes Comunitários de Energia, com a meta de alcançar 2.100 facilitadores formados em 2026, o fortalecimento do Sabedoria Digital e a ampliação do uso da Conexão Saúde nas comunidades conectadas.
Na proteção territorial, foram definidas ações para fortalecer o mapeamento comunitário e o uso da ferramenta Tô no Mapa, além da articulação de informações fundiárias com instituições públicas.
A Rede também estabeleceu metas para fortalecer a cultura, o empreendedorismo, a segurança alimentar e a participação de mulheres e juventudes. Entre as propostas estão a realização de um Encontro de Juventudes, a ampliação da participação feminina nos espaços de decisão e a criação de mecanismos de proteção contra o uso indevido de dados e conhecimentos tradicionais.
Na área de energia, estão previstas mais três formações de Agentes Comunitários de Energia até o final de 2026, além do avanço na regulamentação da iniciativa. A experiência deverá ser sistematizada com a perspectiva de alcançar 100 motores elétricos em 2027.
Outro marco do encontro foi a formalização do Acordo de Cooperação Técnica entre a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) e a Rede Conexão Povos da Floresta, fortalecendo a articulação institucional para ações de formação e autonomia energética.
Para Joaquim Belo, secretário de Formação e Comunicação do Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS), o encontro também representa um momento de fortalecimento da articulação entre os diferentes povos e organizações que integram a Rede.

“A Rede Conexão Povos da Floresta mostra que conectar não é apenas levar internet para os territórios. É criar condições para que os povos da floresta tenham mais autonomia, fortaleçam seus direitos e construam, a partir de seus próprios saberes e organizações, as soluções de que precisam”, afirmou.
A participação da Coiab no encontro reafirma o compromisso da organização com a construção de estratégias de conectividade que considerem as especificidades dos povos indígenas e contribuam para o fortalecimento da autonomia, da proteção territorial, da educação e da saúde nas comunidades.
Com a participação de organizações indígenas, quilombolas, extrativistas, parceiros e representantes comunitários, o 3º Encontro da Rede Conexão Povos da Floresta fortaleceu a construção coletiva de uma agenda voltada a garantir que a conectividade esteja a serviço dos povos e das comunidades.
Sobre a Rede Conexão Povos da Floresta
A Rede Conexão Povos da Floresta é uma iniciativa voltada à inclusão digital e ao acesso a políticas públicas para povos indígenas, quilombolas e comunidades extrativistas. A meta é alcançar, até o final da década, 1 milhão de pessoas em 9 mil comunidades, começando pela Amazônia e avançando para outras regiões em situação de isolamento digital.
Liderada pela Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ) e Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS), a iniciativa reúne mais de 50 organizações parceiras.
A atuação da Rede está estruturada em três pilares: infraestrutura, controle comunitário e inclusão digital com empoderamento. A proposta é garantir que a conectividade seja utilizada como ferramenta de transformação social, promoção de direitos, fortalecimento da autonomia dos povos e conservação da floresta.
(Fotos: Carolina Givoni/Ascom Coiab e Layz Roniele/RCPDF)

