Para apoiar os territórios indígenas na preparação para o período de seca extrema e os possíveis impactos do agravamento do El Niño, a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) lançou uma cartilha com orientações práticas voltada às comunidades, organizações e associações indígenas se organizarem em eventos climáticos extremos. O material está disponível no site da Coiab, em https://bit.ly/CartilhaElNino
A cartilha foi lançada durante a XV Assembleia Geral da Coiab, que ocorreu na Terra Indígenas Karajá/Xambioá, em Tocantins. A ferramenta é voltada para organização e fortalecimento comunitário, com orientações como: proteção, armazenamento e monitoramento da água; organização de alimentos e medicamentos; organização de brigadas e grupos de monitoramento; identificação de áreas prioritárias e vulneráveis; e planejamento de logística, como meios de transporte e combustível.
O material contém, ainda, orientações para as comunidades indígenas criarem seus próprios planos de ação, pensando no período antes, durante e após a seca. Outra seção da cartilha indica quais instituições e órgãos públicos devem ser acionados em casos de falta de água, insegurança alimentar, incêndios, isolamento, crimes ambientais cometidos nos territórios, entre outros cenários.
“Esse documento nasce de uma estratégia maior da Coiab, que é nosso Plano de Adaptação Climática, feito para que as organizações de base se organizem para enfrentar as mudanças climáticas em suas comunidades. Esse material pode direcionar e fazer parte de outros planos estaduais do clima, ser usado para solicitar apoio e como uma ferramenta de construção junto aos órgãos públicos para atender as demandas dos territórios. Desse modo, a Coiab atua de modo estratégico no combate à crise climática, somando junto com as bases e construindo políticas públicas com o movimento indígena”, explica Rosibel Baré, gerente de Monitoramento Territorial Indígena (GEMTI) da Coiab.
Ao todo, 500 exemplares da cartilha foram distribuídos a lideranças dos nove estados da Amazônia brasileira durante a assembleia da Coiab.
Gleissimar Kokama, liderança do Alto Solimões, no Amazonas, e membro do coletivo Flores de Munguba, afirmou que a cartilha vai somar com o trabalho de educação sobre mudanças climáticas que o seu grupo realiza.
“Estou levando a cartilha para as comunidades fazerem seu planejamento de resposta diante da seca. Todos nós, povos indígenas, ribeirinhos, populações tradicionais, precisamos incidir e articular nas instâncias que falam sobre o clima. Na minha região, por exemplo, a população não está sendo convidada para participar dos diálogos, apenas os comerciantes. Precisamos incluir todos nesse processo. A cartilha é uma ferramenta que vai ajudar nessa incidência”, afirma a liderança.

Cartilhas foram distribuídas durante assembleia da Coiab
Mudanças climáticas
O El Niño é um fenômeno natural onde as águas superficiais de uma grande área do Pacífico equatorial ficam mais quentes do que o normal. A mudança da temperatura da água provoca alterações nos ventos, formações de nuvens e distribuição das chuvas, afetando o clima. No Brasil, este fenômeno pode trazer tempo mais seco e quente em regiões como Norte e Nordeste, o que agrava o período da estiagem, propiciando temperaturas elevadas, incêndios e redução do nível de água.
Previsões científicas indicam que haverá um agravamento do El Niño este ano, alterando o padrão climático pelo menos até o início de 2027.
O ciclo histórico de secas que atingiram a Amazônia entre 2023 e 2024 mostraram que os eventos climáticos extremos podem afetar a água, os alimentos, a saúde, a mobilidade e a proteção dos territórios indígenas. Só em 2024, foram mais de 200 terras indígenas afetadas pela seca extrema, impactando diretamente mais de 200 mil parentes, informa o técnico de monitoramento da Coiab, Ruan Guajajara.
“Todas essas pessoas estavam no epicentro de uma seca extrema muito forte, que afeta a logística, a alimentação, os combustíveis, a situação daqueles que são mais vulneráveis, como anciões, mulheres e crianças. Em um contexto de desmatamento, queimadas, pressão de fazendeiros e do agronegócio, isso pode piorar. O El Niño não age sozinho, somado a outros vetores de pressão, ele pode deixar os territórios ainda mais vulneráveis a esse fenômeno”, disse.
A Coiab, por meio da GEMTI, trabalha, desde 2023, com coleta, análise e monitoramento de dados sobre os impactos das mudanças climáticas no território, promovendo formações de Agentes de Monitoramento Indígenas (AMI) e comunicadores.

Momento do lançamento da cartilha durante a assembleia da Coiab
Fotos: Kaiti Topramre
