Lideranças indígenas participam de curso de monitoramento de biodiversidade

Por: Valdeniza Vasques

Publicada em: 20/04/2026 às 11:14

Entre os dias 13 e 15 de abril, cinco lideranças da Amazônia participaram do curso ‘Monitoramento da biodiversidade e coexistência humana-fauna em territórios indígenas’, promovido em Brasília pela Coiab em parceria com o WWF- Brasil e a Manxinerune Tsihi Pukte Hajene – Matpha. A iniciativa teve como objetivo  compartilhar técnicas de monitoramento de espécies dentro do território, a fim de fortalecer a proteção da biodiversidade que cerca as comunidades indígenas.

Ao longo de três dias, os cursistas identificaram quais espécies são mais importantes e/ou problemáticas em seus territórios, se a ocorrência delas aumentou ou diminuiu, ou quais espécies tiveram mudança de comportamento; aprenderam também a mapear as áreas com maiores presenças de animais, locais de conflito e áreas de caça dos animais.

A importância do monitoramento, especialmente de forma coletiva, e os tipos de monitoramento possíveis, como por meio de armadilhas fotográficas e registros de rastros, também foram abordados.

Os alunos do curso são das Terras Indígenas (TIs) Kaxarari, Kamicuã e Cabeceira do Rio Acre, situadas nas regiões entre sul do Amazonas, noroeste de Rondônia e Alto Purus.

Lideranças compartilharam aprendizados sobre monitoramento da biodiversidade em seus territórios

“O curso vai nos ajudar a identificar quais são os animais que ainda existem em nossa comunidade, quais estão desaparecendo e quais estão migrando para outros territórios. É importante para ter esse controle da nossa biodiversidade, por exemplo, apareceu um lobo-guará no nosso território, o que nos deixou surpresos, pois ele não é da nossa região. É a primeira vez que estamos recebendo uma formação desse tipo, é o primeiro passo para levar este conhecimento tão valioso ao nosso território”, disse Vanderleia Kaxarari.

Marinês Apurinã, liderança da TI Kamicuã, enfatizou que os conhecimentos adquiridos são essenciais, especialmente para a melhror convivência com grandes felinos como a onça-pintada.

“As técnicas aprendidas foram muito importantes para juntos evitarmos os ataques dos felinos. A expectativa é que a gente possa fazer de maneira certa para evitar ataques de onças e outros predadores, para que eles não sintam medo da gente e nem a gente deles. Dividir o mesmo espaço com sabedoria e responsabilidade, que daqui para frente a gente possa ter uma convivência boa com os bichos. Esse curso é um norte importante para a nossa comunidade”, disse Marinês.

O monitoramento permite acompanhar o estado da fauna e dos ecossistemas ao longo do tempo, identificando tendencias, ameaças e oportunidades para orientar ações de conservação mais eficazes. Com as informações obtidas pelo monitoramento, as comunidades podem tomar decisões mais fundamentadas sobre a coexistência com os animais, a fiscalização, o uso do solo e para o fortalecimento de políticas públicas e estratégias de manejo territorial.

Neste contexto, o analista de conservação do WWF-Brasil, Felipe Feliciani, destaca o papel estratégico de parceria com lideranças indígenas em ações de monitoramento da biodiversidade.

Alunos aprenderam a montar armadilha fotográfica para monitorar animais

“Esse tipo de formação é fundamental para levar aos territórios indígenas técnicas e aprendizados de monitoramento já aplicados em outras áreas protegidas. Mas o objetivo vai além disso: trata-se de compreender como a riqueza da biodiversidade nesses territórios pode atuar como uma camada adicional de proteção e valorização, fortalecendo a cultura, a permanência das comunidades e a conservação da fauna que ali vive”, reforça Felipe.

Segundo Gracinha Manchineri, gerente do Centro Amazônico de Formação Indígena (Cafi) da Coiab, o curso faz parte da estratégia da organização para levar formação às lideranças da Amazônia brasileira, preparando-as não só par melhor proteger seus territórios, mas também incidir em espaços de decisão oficial, como a COP da Biodiversidade.

“É algo que muito nos orgulha proporcionar, por meio de cursos como este, a junção do conhecimento científico com o conhecimento indígena. Este é um diálogo fundamental para fortalecer a governança e participação política indígenas. Temos que nos mobilizar para ocupar esses espaços internacionais, onde são construídass as políticas de conservação da biodiversidade no mundo. É um desejo do movimento indígena promover a formação para que as lideranças ocupem esses locais de fala, e este curso é um primeiro passo para isso, por meio da experiência de monitoramento, que será desenvolvida e trabalhada, tornando as lideranças indígenas autoridades no tema”, declarou a gerente do Cafi.

Fotos: Valdeniza Vasques