Com a revogação do Decreto 12.600/2025, que autorizava a concessão de hidrovias na Amazônia, os veículos da imprensa tradicional brasileira têm se manifestado negativamente contra a vitória legítima, fruto da luta coletiva liderada pelos povos indígenas e abraçada por outros movimentos sociais, que garantiu a proteção dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins. Veículos como Folha, Estadão e O Globo publicaram editoriais onde criticam a revogação, chamando a mobilização indígena de “baderna”, “barulho”, “truculência” e “bandalheira”.
Ao classificar a luta indígena como “gritaria”, esses veículos não só tentam deslegitimar uma mobilização justa e coletiva, como também reproduzem preconceitos históricos contra os povos originários, colocando-os como inimigos de um suposto desenvolvimento que é tudo, menos sustentável e inclusivo.
Em seu editorial, o Estadão afirmou que o governo “cedeu a uma chantagem pública e à bandalheira”. O Globo falou em “capitulação à chantagem” e a Folha de “chantagem explícita”. Manifestar-se pela proteção dos rios não é um ato de desordem ou chantagem, mas sim de luta pela preservação de um bem natural essencial para a subsistência e manutenção das culturas e modos de vida indígenas e de comunidades tradicionais. Manifestar-se é um direito garantido pela Constituição brasileira; a mobilização representa verdadeiro ato de exercício da cidadania e autodeterminação indígena. A luta pela garantia de direitos fundamentais jamais deve ser inferiorizada ou minimizada, ainda mais por veículos de imprensa, que têm o dever moral de prezar pela liberdade de manifestação e pela democracia.
O editorial do Estadão disse que é um “disparate” chamar o extinto decreto de “privatização dos rios” e “decreto da morte”, evidenciando que o jornal não se preocupou em conhecer os argumentos e reivindicações dos povos indígenas que protestaram, por mais de um mês, contra uma medida que teria impactos socioambientais severos para diversas comunidades e populações que dependem dos rios amazônicos para viver. Demonstra, inclusive, a visão limitada ou a falta de sensibilidade e compreensão da cosmovisão, das pautas e reivindicações que fundamentaram o ato.
O Estadão também falou do “radicalismo” das organizações indígenas à frente da mobilização, dizendo que a denúncia foi um “atalho retórico” para interditar o debate sobre iniciativas de infraestrutura na Amazônia. Em um trecho grave, diz: “Que esses grupos não se queixem quando são vistos como obstáculos permanentes ao desenvolvimento regional”. Neste tom ameaçador de quem julga dominar a opinião pública, o jornal repete um velho ataque preconceituoso contra os povos indígenas, colocando-os como empecilhos ao “progresso”. O único fator permanente nesta situação é a luta histórica dos povos originários para que seus direitos constitucionais não sejam atropelados por iniciativas predatórias que beneficiam uma minoria contra uma floresta inteira que sustenta milhões de vidas.
O jornal O Globo, por sua vez, argumenta sobre a validade da escuta às comunidades indígenas, mas segue imediatamente para a defesa do agronegócio, colocando os indígenas apenas como atores a serem consultados, ao invés dos agentes de decisão que de fato são, conforme estabelecido pela Convenção 169 da OIT. Ora, se o agronegócio “sustenta” o país, quem sustenta o agronegócio é a floresta amazônica, com seus territórios, rios voadores e como equilibrador climático; e são os povos indígenas que, por milênios, têm protegido o bioma que garante a continuidade dessa atividade econômica.
Não se pode deixar de pontuar que os editoriais, seguindo uma mesma linha de pensamento e usando os mesmos adjetivos para desqualificar a mobilização indígena, parecem mais preocupados em atacar as decisões do atual governo federal, aproveitando o ano de eleições, do que de fato propor uma reflexão sobre infraestrutura, meio ambiente, rios amazônicos, povos indígenas e comunidades tradicionais. O que se observa é, novamente, o uso das pautas indígenas como munição no campo político, em uma batalha onde os prejudicados são as vidas e os direitos dos povos originários.
Que se reafirme: a mobilização em defesa dos rios amazônicos é legítima, justa e coletiva. Nenhuma tentativa de desqualificação por parte da imprensa tradicional, que deveria atuar a favor da democracia e pela defesa dos direitos constitucionais, será tolerada.
A luta dos povos indígenas pela garantia de seus direitos é histórica e permanente; estes direitos são inegociáveis e não serão usados como moeda de troca, muito menos como munição em campos de disputa políticos.
Que a imprensa cumpra seu papel, estude, pesquise e ouça os povos indígenas que se mobilizam em defesa da conservação da floresta e da vida de toda a humanidade.
